sábado, 19 de novembro de 2016

Sonho de CÂNCER

A Mulher lá no fundo do mar recebeu a visita do Grande Caranguejo que lhe informa que chegara o Momento. Ela sobe das profundezas e pede a uma onda que a leve até a praia. Pela areia vai andando até a filha que inicia então o trabalho de parto. Prepara o chá de artemísia, retira da cintura a corda de conchas e deixa estendida bem esticada ao lado, para que o cordão umbilical não enrole no seu neto que virá.

Nascem a noite e a criança envolta em algas marinhas. A Mulher a segura nas mãos, erguendo-a em consagração à Lua. Conforme o determinado no início dos tempos, surge ao amanhecer o Senhor da Civilização para celebrarem a nova partilha dos reinos. Também, conforme o determinado, aquele que primeiro falasse teria prioridade de escolha.

A Mulher perdera a voz porque a usou durante a noite inteira em preces ao 4 Elementos pedindo que se reunissem em círculo para a nova vida despontar. O Senhor da Civilização, com voz possante, declara rapidamente aos quatro ventos que tudo sobre a face da Terra, construções e invenções futuras, pertencerão para sempre ao seu domínio e ao feminino caberá o resto. Riu muito de sua esperteza já que quase nada sobrara à outra parte.

A Mulher em vez de revolta, sentiu um grande amor pelo reencontro com a filha e o encontro com o recém-nascido. Agradeceu em silencio à Lua que os iluminou e à maré que a levou até lá. Lembrou todos os ciclos que ela e seus ancestrais viveram para permitir a existência desse momento. Com a criança no braço esquerdo, deu a outra mão à filha e caminharam em direção ao Mar.

Antes de mergulhar. A Mulher olhou para o Senhor da Civilização e sorriu vitoriosa. Ele nem desconfiou que a ela coube para sempre o poder que salvará a humanidade quando seu império desmoronar: O Reino dos Sentimentos.


Voltavam enfim para casa possuindo os três dons fundamentais da magia. A voz interior, a memória e a imaginação.


quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ÁGUA

Caio dos céus
até virar as marés
eu vou virando emoções.
Vivo a fluir,
não tenho  forma nem cor
eu vou pra onde eu vim, meu amor.
Se me detém
eu sempre posso fugir
jorrando aos borbotões.
Sei dos confins
de tanta terra e raiz
que eu molhei e amei por aí,
do limo ao ipê.
Sou eu que uno os secos,
umedeço os seres,
desço aos lodaçais.
Misturo corpos, almas,
ergo os medos
ao prazer dos imortais.
No êxtase dos místicos,
nos líquidos dos sexos,
fluxo e refluxo, suor.
Todo parto é solidão,
lágrima d’Oxum,
gota a gota,
rio a rio,
é tão doce esse sal.
Ai de mim
carrego tanta dor
a dor dos ancestrais.
Só no fim meus filhos terão paz
assim tão lindos no ventre da mãe.
Odò Iyá
brincar de renascer,
flutuam no ar outra vez,
até se tornarem essa luz...
clarão de outra mãe que faz chover.


Do fogo nascer.
https://www.youtube.com/watch?v=p9UJjW4IpRA

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Tempo em mim (André Bolívar/Ana Terra)


Depois de cruzar os céus com tuas roupas coloridas/
gastando as tuas palavras repetidas e sem fim/
retornas quase sem jeito aninhando o nó em meu peito/
morando mais um tempo em mim/
não há portas só janelas/
uma quase louca espera/
depois de deixar casas, ofícios e minha certa vida/
rasgando as santas palavras raspadas de mim/
olhares de espanto cego negando o sol que me deste/
cerrando janelas sem fim/ não existe hora nem porvir/ 
não há tempo se demoras/ pois só milagres vêm de ti.