sábado, 22 de novembro de 2014

MÚSICOS


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Minha Arte – 40 Músicos
Para Helvius Vilela - Natal de 2009
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Por Ana Terra, de Niterói

Não fui agraciada pelos deuses da música com talento para tocar um instrumento. Minha arte se resume a descobrir, nas melodias dos parceiros, palavras que traduzam o que o músico já disse com suas notas musicais. É exatamente isso, traduzir. 

Músicos se expressam em outro idioma, que mesmo não sabendo falar, compreendemos com a escuta do coração quando uma música “nos toca”.

Quando entrei na família Caymmi, iniciei minha carreira de letrista. Mas muito mais do que isso, aprendi, com Dorival e família, respeito e admiração pelos instrumentistas que os acompanhavam e a outros artistas. “Ouça, minha filha, a maravilha que esse menino faz com o piano!” 

Hoje é dia de Natal e por estarmos mais sensíveis com o nascimento do menino-deus, verdadeiro ou simbólico, pensamos naqueles que estão ausentes, porque morreram, como Dorival e Stella, ou porque sofrem com doenças ou outros males. Por isso pensei no pianista Helvius Vilela, que, doente, não pode trabalhar e ganhar seu sustento e de sua família. Pensei nele porque soube disso pela Ana de Hollanda, com quem tocou e que revi no lançamento do seu CD em setembro. 

Pensei em Helvius porque tenho pensado muito nos músicos “da antiga”, que trabalharam a vida inteira, mas não tem quem os mantenha quando a saúde lhes falta. Além da batalha diária para conseguir trabalho com música decente, à altura do talento deles, e não essa porcaria que infesta os meios de comunicação. 

Pensei em Helvius, porque há mais de 30 anos venho militando no setor musical, no qual percebo a perversão que aflora nos que sentam a bunda em qualquer instância de poder, sejam entidades de classe ou poder público. É a figura histórica do traidor de classe, o capitão do mato. Essa perversão consiste em desqualificar os músicos: “são bêbados... são drogados... não se organizam... se estão nessa situação, a culpa é deles...” Não, a culpa não é deles. 

A culpa é de todos nós quando compactuamos com políticas públicas que financiam o empresariado e não o trabalhador. 

Quando não exigimos um sistema de saúde que atenda a todos e não apenas aos que têm plano de saúde. 

Quando não exigimos do Estado a obrigação que lhe cabe: responsabilizar-se por todos os seus cidadãos, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Mas, enquanto isso não vem, tratemos de fazer do nosso modo. Levemos adiante o projeto do baterista Teo Lima, que, inspirado na Casa do Artista dos atores, vem batalhando para criarmos a CASA do MÚSICO. 

Vamos nos unir para, em 2010, concretizarmos essa ideia. Aí sim, teremos um feliz ano novo. “Ouçam, meus filhos, a maravilha que esse menino faz com o piano!” 

Clique para ouvir Retrato em branco e preto com Helvius Vilela ao piano
https://www.youtube.com/watch?v=zftrE2j1jPA

25/12/2009
Fonte: ViaPolítica/A autora 

Mais sobre Ana Terra: Ana Terra é compositora profissional desde 1975 e tem cerca de 100 gravações de obras musicais com letras de sua autoria, como Elis Regina - “Essa Mulher”, “Pé sem Cabeça”, “Sai Dessa”. Milton Nascimento e Nana Caymmi - “Meu Menino”. Maria Bethânia -“Da Cor Brasileira. Emílio Santiago - “Ensaios de amor” e “É só uma canção”. Barão Vermelho e Ângela Rô Rô - “Amor meu grande amor”. Elton Medeiros - “Virando Pó”, “Direito à vida”, “Mãe e Filha”. Sueli Costa e Lucinha Lins - “Insana”, “Minha Arte”. Dori Caymmi, Leila Pinheiro e Renata Arruda - “Essa Mulher”. Lisa Ono - “Os dois”, “Eu sou carioca”, “Diz a Ela”, “Essência”. Mart’nália - “Sai Dessa”. Publicou os livros Letras e Canções (poesia) e Estrela (prosa). Recebeu prêmio do Ministério da Cultura pelo roteiro original do longa-metragem Os Campos de São Jorge. Produz e dirige audiovisuais e tem peças de teatro inéditas. Ao lado da criação artística, atua como ativista política desde os anos 1970, participando do movimento independente das artes, da implantação do canal comunitário de Niterói, dos fóruns de música. Em 2004 foi tema do documentário Ana Terra, do cineasta Luiz Rosemberg Filho.

Um comentário:

  1. Ana Terra você me representa, obrigado.
    Walter Martins.

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