domingo, 9 de agosto de 2015

MEU PAI

Que o dia dos pais é uma data comercial sem nenhum significado simbólico, isso foi uma das coisas que aprendi com meu pai. Meu pai me ensinou muitas coisas mas a mais presente é que ninguém treina sofrimento para o dia que tiver que sofrer já saber como é. Ninguém tem que acordar cedo porque quem sabe, um dia terá que fazê-lo. Ou não comer filé mingnon porque não poderá todos os dias. Ou não gastar todo seu dinheiro na viagem dos sonhos porque pode precisar para uma emergência. Meu pai nunca nos treinou para os acidentes da vida, as dores, as perdas, as tristezas, a solidão. Nunca fez nenhum comentário sobre meus casamentos e separações me dando abrigo sempre que precisei, e um bom uísque nas inúmeras festas em sua casa mas também nos dias comuns. E me apresentando orgulhoso aos amigos: ela é compositora! 

Lembro que a primeira coisa que construiu em sua casa em Niterói foi a piscina:-sabe filha, se não fizer primeiro o dinheiro vai acabar e não teremos piscina. Que ele tão pouco usava mas sempre manteve com água cristalina. Nessas águas até hoje seus 6 filhos, 18 netos e 18 bisnetos deixam felicidade. Hoje ele tem pouca memória recente, então nossas conversas são sobre as férias da infância na casa de meu bisavô em Paquetá, os passeios de barco e pesca submarina em Angra dos Reis quando lá moramos porque como oficial de Marinha era instrutor no Colégio Naval, suas lembranças dos pais, avós e irmãos. 

Um dia postei essa foto do meu neto brincando com ele, e meu tio Eurico lembrou-se dessa obra de Miquelangelo, a Criação de Adão na Capela Sistina. Achei bonita essa comparação. Meu pai é ateu mas nos treinou para a criação, prazer, respeito, dignidade. Que bom que não nos treinou para o sofrimento, porque quando ele vem, a gente sofre e pronto. Mas passa.

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