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segunda-feira, 18 de maio de 2015

Cenas derridianas


"Quando você pega no corpo de alguém você quer o futuro. Há um incêndio nos arquivos. Os sentidos e o sentido se queimam. É o contrário da melancolia. Sem messianismo. Na abertura de uma expectativa promissora."

Luiz Fernando Medeiros de Carvalho



segunda-feira, 20 de abril de 2015

Fragmentos de Maiakóvski

1
Me quer ? Não me quer ? As mãos torcidas
os dedos despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso

2
Passa da uma
você deve estar na cama
Você talvez sinta o mesmo no seu quarto
Não tenho pressa
Para que acordar-te com o relâmpago
de mais um telegrama

3
O mar se vai
o mar de sono se esvai
Como se diz: o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites
Inútil o apanhado
da mútua dor mútua quota de dano

4
Passa de uma você deve estar na cama
À noite a Via Láctea é um Oka de prata
Não tenho pressa para que acordar-te
com relâmpago de mais um telegrama
como se diz o caso está enterrado
a canoa do amor se quebrou no quotidiano
Estamos quites inútil o apanhado
da mútua do mútua quota de dano
Vê como tudo agora emudeceu
Que tributo de estrelas a noite impôs ao céu
em horas como esta eu me ergo e converso
com os séculos a história do universo

5
Sei o puldo das palavras a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro
Às vezes as relegam inauditas inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia
Sei o pulso das palavras parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios alma carcaça.

(tradução:  Augusto de Campos)


sexta-feira, 17 de abril de 2015

A Rainha

Nomeei-te rainha. 
Há maiores do que tu, maiores. 
Há mais puras do que tu, mais puras. 
Há mais belas do que tu, há mais belas. 

Mas tu és a rainha. 

Quando andas pelas ruas 
ninguém te reconhece. 
Ninguém vê a tua coroa de cristal, ninguém olha 
a passadeira de ouro vermelho 
que pisas quando passas, 
a passadeira que não existe. 

E quando surges 
todos os rios se ouvem 
no meu corpo, 
sinos fazem estremecer o céu, 
enche-se o mundo com um hino. 

Só tu e eu, 
só tu e eu, meu amor, 
o ouvimos. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda" 


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Elizabeth Barrett Browning

Ama-me por amor do amor somente.
Não digas: “Amo-a pelo seu olhar,
o seu sorriso, o modo de falar
honesto e brando. Amo-a porque se sente

Minh’alma em comunhão constantemente
com a sua”. Por que pode mudar
isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
do tempo, ou para ti unicamente.

Nem me ames pelo pranto que a bondade
de tuas mãos enxuga, pois se em mim
secar, por teu conforto, esta vontade

De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
me hás de querer por toda a eternidade.

(Elizabeth Barrett Browning – trad. Manuel Bandeira)

Se me esqueceres

Se  me esqueceres
Quero que saibas 
uma coisa. 

Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 

Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 

Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 

Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 

Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus. 

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"
   


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Não Estejas Longe de Mim um Dia que Seja

Não estejas longe de mim um dia que seja, porque, 
porque, não sei dizê-lo, é longo o dia, 
e estarei à tua espera como nas estações 
quando em algum sitio os comboios adormeceram. 

Não te afastes uma hora porque então 
nessa hora se juntam as gotas da insónia 
e talvez o fumo que anda à procura de casa 
venha matar ainda meu coração perdido. 

Ai que não se quebre a tua silhueta na areia, 
ai que na ausência as tuas pálpebras não voem: 
não te vás por um minuto, ó bem-amada, 

porque nesse minuto terás ido tão longe 
que atravessarei a terra inteira perguntando 
se voltarás ou me deixarás morrer. 

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"


sexta-feira, 27 de março de 2015

Narciso

"O narcisista sofre por não se amar: ele só ama a sua representação. Amar-se com amor verdadeiro implica uma indiferença a todas as suas próprias cópias, tais como podem aparecer para os outros e, pelo viéis dos outros, a mim mesmo, se presto muita atenção a eles. Este é o miserável segredo de Narciso: uma atenção exagerada ao outro. Esta, aliás é a razão por que ele é incapaz de amar alguém, nem o outro nem ele mesmo, já que o amor é um assunto importante demais para que se delegue a outro a responsabilidade de negociá-lo."

"O real e seu duplo" - Clément Rosset

sábado, 31 de janeiro de 2015

Saudades

Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?... 
Se o sonho foi tão alto e forte 
Que pensara vê-lo até à morte 
Deslumbrar-me de luz o coração! 

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão! 
Que tudo isso, Amor, nos não importe. 
Se ele deixou beleza que conforte 
Deve-nos ser sagrado como o pão. 

Quantas vezes, Amor, já te esqueci, 
Para mais doidamente me lembrar 
Mais decididamente me lembrar de ti! 

E quem dera que fosse sempre assim: 
Quanto menos quisesse recordar 
Mais saudade andasse presa a mim! 

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"'





terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Estrela - Vladimir Maiakovski


Escutai!!! Se as estrelas se acendem será por que alguém precisa delas? 

Por que alguém as quer lá em cima? 
Será que alguém por elas clama, por essas cuspidelas de pérolas? 
Ei-lo aqui, pois, sufocado, ao meio-dia, no coração dos turbilhões de poeira; 
ei-lo, pois, que corre para o bom Deus, temendo chegar atrasado, 
e que lhe beija chorando a mão fibrosa. 
Implora! Precisa absolutamente duma estrela lá no alto! 
Jura! Que não poderia mais suportar essa tortura de um céu sem estrelas! 
Depois vai-se embora, atormentado, mas bancando o gaiato e diz a alguém que passa: "Muito bem! Assim está melhor agora, não é? Não tens mais medo, hein?" 
Escutai, pois! Se as estrelas se acendem é porque alguém precisa delas. 
É porque, em verdade, é indispensável que sobre todos os tetos, cada noite, 
uma única estrela, pelo menos, se alumie.


sábado, 10 de janeiro de 2015

O AMOR Vladimir Maiakóvski

O AMOR
Vladimir Maiakóvski (1893 - 1930)

Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zoo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo Universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a Terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que
doravante
a família 
seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O Poema das Borboletas

Poesia Sufi: O Poema das Borboletas


As pessoas deste mundo são como três mariposas diante da chama de uma vela.
A primeira chegou perto da chama e disse:
- Eu sei o que é o amor!
A segunda, tocou levemente a chama com suas asas e disse:
- Eu sei como o amor pode queimar.
A terceira, atirou-se dentro da chama e foi consumida...
"E esta foi a única a saber o que é o verdadeiro amor"

(Fariduddin Attar)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

in "O Erotismo" -Georges Bataille

"O ser amado para o amante é a transparência do mundo. O que transparece no ser amado é aquilo de que falarei daqui a pouco a propósito do erotismo divino ou sagrado. É o ser pleno, ilimitado, que não limita mais a descontinuidade pessoal. É, em síntese, a continuidade do ser percebida como uma libertação a partir do ser do amante. Há uma absurda, uma enorme desordem nessa aparência, mas, através do absurdo, da desordem, do sofrimento, uma verdade de milagre. Nada, no fundo, é ilusório na verdade do amor: o ser amado equivale para o amante, para o amante só, sem dúvida, pouco importa, à verdade do ser. O acaso quer que, através dele, a complexidade do mundo tendo desaparecido, o amante perceba o fundo do ser, a simplicidade do ser."


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Ensinamento

Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo.
Não é. 
A coisa mais fina do mundo é o sentimento. 
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo: 
"Coitado, até essa hora no serviço pesado". 
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente. 
Não me falou em amor. 
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado

sábado, 18 de outubro de 2014

Amo-te por sobrancelhas

Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, 
debato-te em corredores
branquísimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galería de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.
Julio Cortázar

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Para Não Deixar de Amar-te Nunca

Saberás que não te amo e que te amo 
pois que de dois modos é a vida, 
a palavra é uma asa do silêncio, 
o fogo tem a sua metade de frio. 

Amo-te para começar a amar-te, 
para recomeçar o infinito 
e para não deixar de amar-te nunca: 
por isso não te amo ainda. 

Amo-te e não te amo como se tivesse 
nas minhas mãos a chave da felicidade 
e um incerto destino infeliz. 

O meu amor tem duas vidas para amar-te. 
Por isso te amo quando não te amo 
e por isso te amo quando te amo. 

Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"