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quarta-feira, 23 de julho de 2014

A ALMA ENCARNADA - 1

Cansaço, fome e solidão. Os pés quase parando e o coração mais acelerado. Os seres noturnos aquecendo as vozes, a encruzilhada adiante, o medo de perder-se para sempre. A hesitação. Talvez ela sente e chore mansamente, talvez grite e amaldiçoe o destino, talvez respire fundo, esvazie os pulmões e a mente, feche os olhos, rode em volta de si mesma com o indicador esticado e siga o caminho que o inconsciente, a sorte, Hermes, enfim, ela mesma escolheu. Mais uma vez, a mais triste das virtudes a impulsionou e seguiu movida por um fio de esperança. Ou teria sido pela fé, a mais irracional? Logo adiante, sentado em posição de lótus, imenso e silencioso, um homem abriu os braços e ela coube inteira no seu colo. Adormeceu aquecida e alimentada pelo Buda-Nagô.

Esse foi o sonho inaugural, na primeira semana do curso, estudando o primeiro texto: “Da natureza e da origem da alma”. A interpretação é clara. Vivendo uma crise em vários níveis, há muitos meses, eu estava à beira de uma estafa. O meu corpo reclamava com dores e não respondia mais aos tratamentos tradicionais analgésicos, anti-inflamatórios e fisioterapia. Eu tinha que dar uma virada na minha vida.

In "Relato de uma Aprendizagem" - Ana Terra /2004

domingo, 6 de julho de 2014

A ALMA ENCARNADA - 2

No ano anterior, depois de muito resistir, realizei finalmente a histerectomia. Não podia mais perder a quantidade de sangue que perdia em hemorragias que resultavam em anemia. Mas sabia que todo sofrimento era somatizado no útero; minha poderosa Lua em Câncer não deixava por menos, o mesmo órgão que abrigou 4 filhos, realizando a maternidade, no meu caso um padrão de força, agora abrigava miomas que me enfraqueciam. Sabia também que a cirurgia ia resolver ‘um’ problema, mas não ‘o’ problema. O sintoma se deslocaria mas não sabia para onde. Sete meses depois meu braço esquerdo doía e ficava dormente.

Claro, doença do coração, como eu não pensei nisso antes? Eu sempre tão sentimental, sofria muito do coração.  Fui parar na emergência de atendimento cardíaco levada por minha amiga Leila. Deu tudo normal. Menos a dor, que continuava me impossibilitando cada vez mais os movimentos dos braços e mãos. Descobri finalmente que tinha artrose, doença clássica na minha família e três hérnias de disco na cervical. Então mais uma vez eu realizava literalmente meu mapa astral de nascimento: Capricórnio é a estrutura, rege o esqueleto e Touro o pescoço. Meus signos ascendente e solar se manifestavam para que eu pudesse me salvar do sofrimento crônico. O medo de perder-se para sempre. E o sonho veio confirmar que eu seria salva pelo movimento e a entrega ao desconhecido. E lá fui eu estudar como ouvinte no Mestrado em Ciência da Arte, levada também por Leila, no curso do professor Julio Tavares.
“... toda experiência cognitiva inclui aquele que conhece de um modo pessoal, enraizado em sua estrutura biológica, motivo pelo qual toda experiência de certeza é um fenômeno individual cego em relação ao ato cognitivo do outro, numa solidão que só é transcendida no mundo que criamos junto com ele.” ·
In "Relato de uma Aprendizagem" - Ana Terra /2004

A ALMA ENCARNADA - 3

No semestre seguinte, participei do curso em que o pensamento de Merleau- Ponty se entrelaçava com os de outros autores e com os nossos, alunos de variadas áreas, confirmando a importância da experiência vivida como acesso às essências da consciência. O próprio ato de estudar me deu oportunidade de perceber minha autopoética- que aqui desenvolvo como “relato de uma aprendizagem” traçando paralelos entre minha vida vivida e meu trabalho em poesia e prosa, como experiência encarnada na expressão estética.

“Por corpo entendo um modo que exprime, de uma maneira certa e determinada, a essência de Deus, enquanto esta é considerada como coisa extensa.”

Ao me deparar com Spinoza, primeiro autor da bibliografia do curso, me deparei com o medo de não possuir inteligência (Ar) suficiente para entender um racionalista. Sua forma geométrica de expor um pensamento apavorou minha forma sentimento (Água) de apreender o mundo. Por que, a essa altura da vida, quando todos pensam em se aposentar eu invento uma pedreira? Voltar a estudar... na tentativa de superar essa terrível aversão ao estudo formal. A escola sempre foi uma prisão que não tinha sentido. Eu poderia desistir mas estaria desistindo de uma aventura que o Destino teve a gentileza de me oferecer, docemente num sussurro: “Fundamentos para uma Antropologia Filosófica do Corpo, o tema te interessa, você é antes de tudo sensação (terra), matéria, corpo, e sabe bem, eu não bato na mesma porta duas vezes...”

A cada semana, um medo de não dar conta e um maravilhamento por conseguir, ao menos um pouquinho, entrar no texto. Descobri um atalho para isso. Eu precisava conhecer alguma coisa da vida pessoal do autor para compreender o que o levou a pensar o que pensou. Às vezes, quando tinha dados, calculava até o mapa astral da figura. Passou a ser fundamental conhecer onde e de quem nasceu, infância, vida amorosa, amigos e inimigos, enfim, o que chamei de “revista Caras” dos pensadores. Outra coisa, foi não brigar com o texto, ter paciência e não desistir quando ficava chato tantas demonstrações de uma mesma ideia, tanto detalhamento e rigor, tanta racionalidade...   
           
In "Relato de uma Aprendizagem" - Ana Terra /2004

A ALMA ENCARNADA -4



A POESIA QUE NÃO ESTÁ

 Se os deuses tivessem me oferecido apenas uma dádiva como passaporte para o Terceiro  Milênio e entre tantas carências da Humanidade uma só pudesse ser satisfeita, com certeza escolheria a que me parece a base para qualquer transformação verdadeira: a compreensão.    
              
     Compreender: abranger, conter em si, perceber as intenções secretas, incluir.
     Conhecer: fazer ideia, ter noção ou informação de, ter notícia.
A compreensão permite que você pertença à paisagem, deixando o lugar de observador, realizando a síntese. Não depende só do repertório individual porque o ser simplesmente é. Não havendo relativismos, essa integração quando se dá, é uma experiência absoluta.

A civilização não é obra da compreensão mas do conhecimento e sem ele ainda estaríamos nas cavernas. Mas de alguma forma ainda estamos na escuridão das cavernas. Muitos de nossa espécie não habitam moradias tradicionais ou vivem nas ruas. Muitos de nossa espécie, a elite que habita mansões e palácios, a classe média que habita os arremedos daqueles, trafegam na mesma vala sombria do pensamento individualista, segregador e preconceituoso.  Onde está a saída? Como se livrar desse mal-estar permanente sem tornar-se um cínico? Essa pergunta me levou a reencontrar Artaud, que li há muito tempo e era um dos autores da bibliografia do curso, e amar sua loucura, sua lucidez, sua dor, na frase que incorporei na hora:

Nunca ninguém escreveu ou pintou, esculpiu, construiu, inventou, a não ser para sair do inferno.

Antonin Artaud, diretor, ator de cinema e teatro, poeta, nasceu em Marselha, no dia 4 de setembro de 1896. Sol em Virgem (terra) e Lua em Câncer (água). Aos dezesseis anos é internado por desequilíbrio mental, e viveu nove, dos seus 52 anos de vida em asilos. Mesmo vítima do tratamento destruidor de insulina e eletrochoques, manteve radicalmente sua poética e lucidez, à frente, tão à frente de seu tempo que nada nos parece mais atual que esse trecho do prefácio ao “Teatro e seu Duplo” ·:
“Todas as nossas ideias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida. E esta penosa cisão é motivo para as coisas se vingarem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos mais encontrar nas coisas reaparece de repente, pelo lado mau das coisas; e nunca se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência em possuir a vida.

In "Relato de uma Aprendizagem" - Ana Terra /2004

A ALMA ENCARNADA -5

A cultura não está separada da vida, e contra essa dicotomia, onde a cultura dominante é endeusada, distanciada da função de instrumentalizar a existência, Artaud sempre protestou: “Eu escrevo para analfabetos”. Essa maravilha de frase dita por um escritor é uma demonstração de que a linguagem da arte, que se constrói por metáforas, é linguagem da mesma ordem da loucura, como bem disse Althusser na autobiografia: “o delírio também é realidade”.

As insuportáveis verdades de Artaud são como um bálsamo para minha alma de artista, que reconhece em suas palavras, focos de luz de inúmeras origens e tons, a colorir a escuridão de todos nós. Mas para enxergarmos um pouquinho melhor, é necessário o trabalho cotidiano e humilde de polir nossas lentes, lembrando o que fazia literalmente, para sobreviver, aquele que segundo Bertrand Russel é “o mais nobre e mais amável de todos os grandes filósofos”, Spinoza:

“Da essência de Deus resultam coisas infinitas em número infinito de modos; mas explicarei apenas aquelas que podem conduzir-nos, como que pela mão, ao conhecimento da alma humana e da sua beatitude suprema.”.

Artaud que bebeu nas fontes do México e do Oriente vai trabalhar com o conceito de cultura em ação, agindo como força e exaltação, ao contrário do ideal europeu de arte que separa espírito e força, e que ao se contentar em apenas assistir à sua exaltação, provoca algo semelhante à morte. E porque temos medo de uma vida fundamentada na magia, a transformamos em signos mortos. Sua proposta radical de teatro como espetáculo da vida e suas sombras, propõe abrir mão das facilidades da linguagem habitual para buscar um retorno à energia primordial.

Ninguém mais distante de mim que Artaud. Eu não passo de uma dona de casa e avó, artista burguesa a escrever versos de música, mas que se permite alguns momentos de maior liberdade: no ato da criação. Este é um momento absoluto. Ao escrever com lápis e papel ou computador, uma letra de música, um poema, uma peça teatral, um roteiro de filme, um romance ou um artigo, utilizo códigos e instrumentos da civilização mas não é só isso. Não é só a função pensamento e o elemento ar que estão sendo acionados. A intuição (fogo), a sensação (terra) e o sentimento (água) precisam fluir livremente na minha mandala interior para que a obra ganhe vida e me alimente, me devolva a energia que gastei para criá-la. Anulando a dualidade, criador e criatura são uma mesma e única natureza. Não é só produzindo arte que se alcança esta inteireza. Cozinhando, estudando ou cuidando de alguém, podemos reencontrar a poesia em nós e nas coisas que nos rodeiam.  

Da mesma forma que o encontro amoroso quando realiza a alquimia perfeita é muito mais que o ato sexual em si: é uma obra de arte. Essa sensação de pertencer ao cosmos também pode ser alcançada no transe místico ou quimicamente. Mas a maioria das pessoas não pode viver em permanente estado alterado de consciência sem se consumir até a morte final. Então qual é a saída?
Acredito que ela precisa ser construída por cada um de nós em forma de pontes, dentro da paisagem do conhecimento, formando elos entre diversos saberes, mas tendo como fios condutores a arte e a filosofia, tecendo uma generosa rede de compreensão porque nela, tudo cabe, e nada do que é humano lhe é estranho. 
In "Relato de uma Aprendizagem" - Ana Terra/2004


A ALMA ENCARNADA - 6

A Letra da Magia e a Magia da Letra
Antes de aprender a ler eu pegava um livro e achava bom seu cheiro, sua forma, seu mistério. Talvez a energia da palavra escrita tenha encontrado uma porta aberta naquela menina calada. Ocupou um canto silencioso e permaneceu. Hoje tenho certeza. Foi ela, junto com a maternidade que me salvaram de uma existência opaca, difusa, diluída. Sempre que me senti perdida, o ato de ler ou escrever me trouxe o rumo, como a mão de um filho.
Minha primeira letra de música gravada foi em 1975, pelo Tamba Trio e chama “Contra o Vento”, mas o primeiro texto publicado foi em 3 de fevereiro de 1974, dia seguinte da grande festa do mar, com o titulo `O Espetáculo` e falava de peixes pequenos assustados com os tubarões. Eu ainda não sabia o que é sincronicidade! Olhando para trás me emociono por ter sido salva tantas vezes.
Pelos Orixás das águas que me deram o privilegio de ser artista.
Pela Astrologia, terra firme que me deu instrumentos para mergulhar mais fundo no universo simbólico.
Pela musica que botou no ar minha poesia e a conduziu a mares jamais previstos.
Pela participação política que me fez nadar em águas turvas, mas de onde veio a luz, o fogo para enxergar melhor meu país, a nação soberana do terceiro milênio. Eu tenho fé, será.
Pelos livros que tocaram minhas mãos, minha mente e meu coração. 
Agradeço a generosidade dos velhos e dos novos parceiros. E ao nosso aliado incondicional, o deus Tempo, senhor soberano do artista.

In "Relato de uma aprendizagem" - Ana Terra/2004

sábado, 21 de junho de 2014

A alma encarnada - 7 - Drogas

Não tenho distanciamento crítico, embasamento científico ou pretensão acadêmica, me baseio apenas na experiência vivida. Um amigo que já foi dependente químico e nossas conversas sobre drogas, sexo e rock n' roll. Over dose, depressão, fundo do poço e solidão. Mas também horizontes azuis, cânticos e maravilhamento. O que pude observar em muitos anos é que não se pode lidar com a questão da dependência química demonizando a droga.


Em primeiro lugar precisamos admitir que droga é bom. Cerveja, cigarro, vinho, maconha, calmante, açúcar, cocaína, analgésicos, daime, morfina, café, Coca-cola. Ruim é a dependência provocada pela compulsão. Que pode ser por uma substância, pode ser por sexo, pode ser por dinheiro. Existem inúmeras formas de ser dependente. Inclusive do tratamento.

As pessoas se drogam basicamente por dois motivos. Para sentir menos ou para sentir mais. As drogas que anestesiam e as que abrem mais portas para a percepção. Nas duas formas estão contidos prazer e dor, como tudo na vida. Quando a dose se torna over é porque o namoro com a dama sedutora chamada Morte está virando um caso sério. Ninguém quer que um ente querido morra. Temos enorme dificuldade de encarar o fim. Criamos deuses e religiões para acreditar que a vida não termina com a morte mas não aceitamos que alguém em sã consciência possa preferir morrer a viver. Quem nunca sentiu vontade de sumir? Há momentos em que a gente olha para a vida e pergunta: poxa, é só isso? Quero brincar de outra coisa!...



Claro que tudo se tenta para livrar quem se sente prisioneiro das drogas, inclusive o tratamento considerado mais eficaz que são o AA e o NA, modelo americano formatado no molde evangélico do testemunho. Só tem que ter cuidado para não trocar uma droga por outra. Essa afirmação de que são todos portadores de uma doença incurável chamada dependência química é tomar a consequência como causa. Além de bancar um grande comércio que se sustenta no “tratamento” do dependente.

sábado, 14 de junho de 2014

A alma encarnada - 8 -CONSUMO E CRIANÇAS


As alegrias e tristezas de viver nesse nosso tempo deixaram como marca em mim a certeza de que ninguém tem mais direito à ingenuidade de não saber que o mundo é como é. No distante e no próximo. Todos os dias, os acontecimentos mais corriqueiros nos convocam a ter uma posição, mas quantas vezes fazemos corpo mole e nos fingimos de tontos? Como por exemplo, que os meios de comunicação estão a serviço da publicidade que os sustenta, todos nós sabemos.  Mas que ao permitir que nossas filhas ou netas se vistam como putas e dancem na boquinha da garrafa como ordenou a rainha dos baixinhos e que assim incentivamos não só o consumo mas também a pedofilia, é tão chato pensar... que isso a gente finge que não sabe.

Quando um flanelinha, num tom misto de humildade e ameaça velada, cobra para a gente estacionar o carro no espaço público, nós pagamos para não sofrer represália. Não queremos nem pensar que o tecido social está tão esgarçado que vai arrebentar a qualquer momento, e afinal esse papo de luta de classes está tão fora de moda...  Quando fechamos rapidamente a janela do carro se um pivete se aproxima, além do medo, a gente sente raiva de ser importunado. Nem queremos pensar que se nossos filhos precisam do tênis e da mochila de marca para serem aceitos, a mesma mensagem publicitária também chega ao menino de rua.

Mas em algum momento de nosso mal estar uma voz lá dentro pergunta: que merda de mundo é esse em que a gente passou a ter medo de criança?


in "Relato de uma aprendizagem" / 2004


terça-feira, 10 de junho de 2014

A alma encarnada - 9 -NÃO SEI LIDAR COM AS PERDAS

E nem quero. Teria que me transformar em outra pessoa. O que se vai de ruim alivia mas quando é alguém que amamos? Por morte então, é a pior perda porque nem temos a chance de reverter. Em vida, se não consigo, não é um vazio em mim que se abre mas um peso que carrego. 

Muitas e muitas vezes mudam as formas e os conteúdos do afeto, passando de um estado a outro: paixão, amizade, namoro, casamento. Afinal, qualquer maneira de amar vale a pena. O afeto recíproco também pesa, mas é uma força ao contrário, que nos faz flutuar. Mas a rejeição de quem amamos puxa para baixo. Causa tristeza, depressão, melancolia. 

Mas talvez, se eu nunca afundasse, jamais soubesse o que é voar.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A alma encarnada - 10- VIVER FAZ MAL À SAÚDE

A vida hoje é mais longa e temos mais recursos para nos curar. E também para adoecer. Não sou obscurantista a ponto de não reconhecer os avanços das pesquisas e da ciência para mudar o mundo. Para o bem e para o mal. O que me espanta é não se fazer uma reflexão crítica sobre as informações que recebemos de enxurrada a cada minuto. O que está por trás de cada pesquisa e de cada notícia sobre saúde. 

Se o poder econômico e a ideologia americana comandam o mundo, não há como abstrair esse dado da reflexão. Já que o assunto é muito extenso, vou me ater sucintamente a apenas um dos mais polêmicos: cigarro careta. As estatísticas que apontam o cigarro como causa de morte não cruzam todas as outras práticas daquela pessoa, alimentos com agrotóxicos e poluição de veículos, sabidamente causadores de câncer e de outras doenças. E que todos, fumantes ou não, consomem. Sem falar em álcool e medicamentos alopatas em excesso.

As indústrias: farmacêutica, de armamento, de drogas ilegais e do petróleo são os setores  mais ricos da economia. E por isso tem o lobby mais poderoso. O tabaco virou o vilão da história. Mas praticar corrida em rua onde circulam veículos movidos à petróleo equivale a fumar 3 cigarros por quarteirão respirado. Só para a gente pensar um pouco sobre isso. 

Mas como disse o poeta Capinam: 
Estou aqui de passagem
Sei que adiante
Um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
De susto, de bala ou vício...

terça-feira, 3 de junho de 2014

A alma encarnada 11- AI, COMO DÓI

Muitos pensam o mundo como uma realidade autônoma, anterior e separada do ser humano que, por sua vez, seria um banco de dados a armazenar passivamente o conhecimento que recebe. A visão fragmentada da vida, em variadas correntes do pensamento, tem sido hegemônica porque serve ao poder dominante. Ao enfraquecer a vida, separando-a em partes, o indivíduo perde sua potência e, ao fragmentar-se, pode ser manipulado com mais facilidade.

Vivemos a era da especialização, do clone e do descartável. Conhecendo cada vez melhor o menor, nos afastamos da totalidade. Quando sentimos dor, nos referimos a um pedaço do corpo que dói e consultamos o médico especializado naquela área. Mas, na verdade, quando adoecemos, é nossa unidade de corpo e alma, nosso mundo que adoece. Estamos nos comunicando, usando a doença como metáfora, uma linguagem para dizer que alguma coisa no mundo percebido, que, por sua vez me percebe, está em desequilíbrio.

Mas quando necessitamos de um atendimento médico, na maioria das vezes, em vez de uma terapêutica de reintegração, somos induzidos a mais fragmentação. Isolam-nos de nossa história pessoal e dos elos afetivos para facilitar a prática de uma medicina invasiva, impessoal e pragmática, onde somos avaliados do ponto de vista de um saber padronizado e estatístico. Privilegiando a objetividade como condição para a exatidão científica, o subjetivo é jogado fora como a criança junto com a água do banho. Como nos diz Merleau-Ponty, “A ciência manipula as coisas e renuncia a habitá-las.” 

A alma encarnada -12 - Exclusão Social e Afetiva

Precisamos reconhecer que somos privilegiados por pertencer a uma classe social que além de comer todo dia, tem acesso a tantos alimentos da alma. Isso nos convida a refletir sobre uma questão permanente na vida do Homem e que a despeito de todo o conhecimento acumulado durante séculos mostra cada vez mais sua face brutal na atualidade: a exclusão social e afetiva.

O uso que fizemos dos grandes inventos tecnológicos foi e é cada vez mais imoral. Com nossa participação ativa, ou nossa omissão, o que no fim dá no mesmo, permitimos que a riqueza gerada pelo trabalho de toda a humanidade em vez de se transformar em melhores condições de vida para todos, foi parar nas mãos e mentes cada vez mais anônimas dos que operam os grandes conglomerados econômicos.

Essa nova forma de gerenciar o mundo criou um dogma para tentar tornar inquestionável seu poder: a chamada ‘globalização’. Mesmo concordando com a visão otimista de Antonio Negri[i] , afirmando que o mesmo germe de construção do Império está presente em sua destruição, como por exemplo, a mesma globalização tecnológica permitiu a democratização imediata da informação, pela rede da Internet, a questão é que não basta ter conhecimento dos fatos, é preciso que eles nos afete, é preciso incorporá-los.

Na verdade somos massacrados continuamente pelo braço mais perverso desse sistema: os meios de comunicação de massa. Sua perversão consiste em nos iludir de que estamos participando dele ao receber todo tipo de informação. Aí está o grande engano. Qualquer informação que exceda nossa capacidade de elaborar se transforma num lixo que vai se acumulando até entupir de vez nossos canais de percepção. 


E são esses canais entupidos que permitem, por exemplo, que uma notícia aterradora como a existência de brasileiros vivendo hoje sob regime escravo em nosso próprio país, receba do governo como punição, simplesmente o não direito a financiamento público quando se trata de crime hediondo contra a humanidade. Ou que aceitemos como verdade que o MST-Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra seja o que é mostrado todos os dias no noticiário: um bando de porra-louca baderneiros que sai por aí invadindo propriedades produtivas. Por que não mostram o projeto educacional do MST, sua agricultura orgânica ou uma Mística? Por que não dizem como Noam Chomski que é um dos movimentos sociais mais importantes que acontece no mundo?  Que suas propostas podem criar um novo paradigma de vida para a humanidade?

Ou por que fugimos como o diabo da cruz quando ouvimos ”-aí, perdeu, tá ligado, já é.”? A mídia burguesa já nos mostrou que esse é o dialeto dos bandidos. E além do mais não podemos suportar a idéia que a juventude favelada e excluída tenha capacidade de organização política como o movimento Hip Hop. E que analfabetos sejam criativos, potentes e produzam arte. Em nossa arrogância de elite desprezamos tudo aquilo que não podemos controlar. E os desqualificamos.

in: Minha Arte: relatos de uma aprendizagem 2004




[i]  Negri, Antonio. “O Império”