quinta-feira, 31 de julho de 2014

EU NÃO QUERO - Eudes Fraga/Ana Terra

Para o vídeo acesse o link:


Eu não quero nada
nada rapidinho
nada meio over
muito moderninho

Eu não quero site
e-mail, recadinho
nada meio cover
nada muito light

eu não quero night
sexo megabite
nada meio fake
nada muito punk

eu não quero funk
 quero um amorzinho
mas não quero morno
eu só quero bem quentinho

domingo, 27 de julho de 2014

FRAGMENTOS DE MIM - I -

Nasci quando folhas secas caíam pelas ruas e um pouco desse outono permaneceu em mim. Antes de aprender a ler acariciava livros como  gatos de estimação. As estrelas estavam sempre desfocadas porque sou míope mas a minha solidão enxergava como se tivesse uma lupa  pregada à minha mão. Meu pai me levava para ver aquários  e minha mãe costurava poesia na imaginação. Por isso vivi sempre entre mergulhos em águas profundas para salvar peixes, e saltos mortais para alcançar  palavras soltas que voavam da cabeça dela. Naquele tempo eu era uma atleta mas hoje só vou até à janela. Peixes e palavras saltam para minhas mãos.                                                    


FRAGMENTOS DE MIM - II -

Eu chamei mas ninguém ouviu. Talvez minha voz fosse fraca, meu grito só mímica, meu esgar invisível mas nunca tive vergonha de pedir, só que talvez ninguém pudesse ajudar mesmo, pensam, moça bonita e inteligente não precisa de nada.  E eu na minha pouca idade já lia pensamentos e sentimentos, sempre contraditórios, e também emoções que são mais fáceis de ler porque estão escritas no corpo, difícil embaralhar palavras no peito,  nos olhos, na aura então, impossível. E por isso pedia ajuda, não dava conta de tanta leitura dos outros. Hoje não dou conta das escritas em mim, mas ninguém me ajuda. Quero tão pouco, uma vírgula no caminho, um verbo no presente entornado na mesa, um adjetivo em cima da cama. Não me dêem conjuntivo nunca, nada que seja ação hipotética, irreal, ainda não realizada. Só uma interjeição bonita no final do abraço. Mas ninguém me escuta.

FRAGMENTOS DE MIM - III -

A tarde me cobria de lilases e corais e corria como uma demente para o homem que me chamou, vem minha flor, e eu ia. Sempre fui, desde um inverno num bar com o primeiro namorado, eu no banheiro esfregando pernas e braços pra me aquecer e a faxineira, -nesse frio melhor que casaco é homem, homem é quente, e encostei nele confirmando. 

Nunca entendi os homens são todos iguais, são tão diferentes que dá um trabalho danado escolher  qual cor me iluminará  para ele, e imaginar de qual parte de mim ele se encantará, porque a gente diz, gosto tanto de você, mas ninguém gosta de tudo, sempre é um nada que encanta e o resto faz parte. Pode ser a nuca que apareceu quando prendi o cabelo, um silêncio na hora certa, meu ar distraído que o surpreendeu, o peito que encostei no dele, a palavra bonita que saiu, um afago na curva do quadril, mas cada um é de um jeito. E eles me ocupavam tanto que fui me desvencilhando da obsessão por peixes, palavras, e de ler os outros por dentro.  Desde então meu ofício é procurar arco-íris e descobrir que homem é mesmo uma maravilha.