sexta-feira, 27 de março de 2015

Narciso

"O narcisista sofre por não se amar: ele só ama a sua representação. Amar-se com amor verdadeiro implica uma indiferença a todas as suas próprias cópias, tais como podem aparecer para os outros e, pelo viéis dos outros, a mim mesmo, se presto muita atenção a eles. Este é o miserável segredo de Narciso: uma atenção exagerada ao outro. Esta, aliás é a razão por que ele é incapaz de amar alguém, nem o outro nem ele mesmo, já que o amor é um assunto importante demais para que se delegue a outro a responsabilidade de negociá-lo."

"O real e seu duplo" - Clément Rosset

A dor invisível

Eu tenho fibromialgia, ou melhor, ela me tem. Não sei quando abri a porta mas talvez ela tenha entrado sem ser convidada. Aproveitou um momento de dor, lá atrás, quando perdi minhas irmãs porque morreram. Lá atrás, quando o homem com quem tive dois filhos os roubou de mim. Lá atrás quando sofri um sério  desastre de automóvel. Não sei. Sempre tive essa dor no corpo e na alma, esse cansaço sem causa, essa lentidão. E ninguém sabia o que era. Então durante décadas me receitaram antiinflamatórios, analgésicos, cortisona e antidepressivos até encontrar um velho médico reumatologista na Ordem Terceira de São Francisco da Penitência que após me examinar, me libertou: "você tem fibromialgia, minha filha." Sim, me libertou porque a pior coisa que se pode ouvir quando sentimos dor é que é emocional. Tudo é emocional e corporal porque somos uma unidade. Ainda bem que optei pela homeopatia unicista que muitas vezes me aliviou para que meu vale de lágrimas se transformasse num rio de Oxum, onde a fertilidade me banhou para que tivesse mais dois filhos, oito netos e minha obra poética e política. E o amor, que rimo com prazer, alegria, cumplicidade. E quase sempre é maior que minha dor.
                                              Ana Terra/2015 

Nem nada que direito fosse chegava a mim

Quando eu machucava os meus pés nas pedras
quando o mundo todo me mandava a merda
quando nem uma flor, nem um carinho
nada que direito fosse chegava a mim
minha mão com dor o corpo inteiro 
mais fremia o espinho, 
já que a dor é minha e por dever a sinto
já que o sofrimento não tem fim
e assim mesmo na visão turva de um quase cego
via lampejos de fantasmas e almas penadas surdas
que tocavam minha língua em desespero por palavras
meus braços se lançavam aos céus como afogado
e deles fugiam demônios
que ainda hoje eu quase pego
e com essas mãos imundas de um desgraçado 
afagava sem engano a invisível face 
eu me acostumei a beijar a morte
andar sem rastro, estrelas, gasto
eu ando gasto
eu sou um bosta que nasceu sem sorte 
de quatro pra lua, catando o pasto.

Ana Terra/André Bolívar - 2015