domingo, 6 de julho de 2014

A ALMA ENCARNADA -4



A POESIA QUE NÃO ESTÁ

 Se os deuses tivessem me oferecido apenas uma dádiva como passaporte para o Terceiro  Milênio e entre tantas carências da Humanidade uma só pudesse ser satisfeita, com certeza escolheria a que me parece a base para qualquer transformação verdadeira: a compreensão.    
              
     Compreender: abranger, conter em si, perceber as intenções secretas, incluir.
     Conhecer: fazer ideia, ter noção ou informação de, ter notícia.
A compreensão permite que você pertença à paisagem, deixando o lugar de observador, realizando a síntese. Não depende só do repertório individual porque o ser simplesmente é. Não havendo relativismos, essa integração quando se dá, é uma experiência absoluta.

A civilização não é obra da compreensão mas do conhecimento e sem ele ainda estaríamos nas cavernas. Mas de alguma forma ainda estamos na escuridão das cavernas. Muitos de nossa espécie não habitam moradias tradicionais ou vivem nas ruas. Muitos de nossa espécie, a elite que habita mansões e palácios, a classe média que habita os arremedos daqueles, trafegam na mesma vala sombria do pensamento individualista, segregador e preconceituoso.  Onde está a saída? Como se livrar desse mal-estar permanente sem tornar-se um cínico? Essa pergunta me levou a reencontrar Artaud, que li há muito tempo e era um dos autores da bibliografia do curso, e amar sua loucura, sua lucidez, sua dor, na frase que incorporei na hora:

Nunca ninguém escreveu ou pintou, esculpiu, construiu, inventou, a não ser para sair do inferno.

Antonin Artaud, diretor, ator de cinema e teatro, poeta, nasceu em Marselha, no dia 4 de setembro de 1896. Sol em Virgem (terra) e Lua em Câncer (água). Aos dezesseis anos é internado por desequilíbrio mental, e viveu nove, dos seus 52 anos de vida em asilos. Mesmo vítima do tratamento destruidor de insulina e eletrochoques, manteve radicalmente sua poética e lucidez, à frente, tão à frente de seu tempo que nada nos parece mais atual que esse trecho do prefácio ao “Teatro e seu Duplo” ·:
“Todas as nossas ideias sobre a vida têm de ser revistas numa época em que nada mais adere à vida. E esta penosa cisão é motivo para as coisas se vingarem, e a poesia que não está mais em nós e que não conseguimos mais encontrar nas coisas reaparece de repente, pelo lado mau das coisas; e nunca se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza só se explica por nossa impotência em possuir a vida.

In "Relato de uma Aprendizagem" - Ana Terra /2004

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